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The Best Years of Our Lives

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.11.07

Voltar a casa. Expectativas, ansiedade, receio. Perceber que muita coisa mudou. Perceber que se é preterido no aeroporto por um empresário rico, por exemplo. Perceber que o seu papel já não é valorizado, que já se passou para o fim da lista. O oportunismo natural das sociedades. Isto é universal, mas aqui é a América. Onde tudo parece andar mais depressa.

Voltando atrás. Ao aeroporto onde os nossos soldados esperam por uma vaga num avião que os leve de volta a casa. Têm postos militares e especialidades diferentes. O que não os impede de confraternizar como se já se conhecessem. Há uma cumplicidade imediata naquele trio. A consciência da sua humanidade e do que é essencial: os afectos, e integrar-se de novo na comunidade, num outro papel em que se sintam úteis.

O marinheiro ficou mutilado e usa próteses de forma hábil, fisicamente mantém a autonomia, mas receia que a namorada, ainda muito jovem, se impressione. O cabo, o mais velho, é casado, tem dois filhos, trabalha num banco e vive confortavelmente numa das avenidas modernas. O piloto, recém-casado, é o mais medalhado mas também o mais ferido na alma, mantém o pesadelo nocturno da morte de um companheiro.Foi por esta ordem que foram sendo entregues nas suas casas, nervosos, hesitantes, amedrontados.As guerras utilizam e trituram vidas de jovens. Depois, largam-nos sem qualquer sentido de responsabilidade. Sem qualquer respeito pelo que viveram e passaram. E estamos a falar dos que voltam…Estes voltaram. E dão-nos uma lição de humildade, dignidade e humanidade que é raro, raríssimo ver hoje em dia nas nossas comunidades modernas. Mostram-nos o que de essencial se está a perder. Todos eles encontram o seu lugar depois de sofrer decepções, depois de enfrentar a frieza e o cinismo. E todos eles encontram o afecto. E todos, de forma comovente.

 

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publicado às 15:16

Mr. Smith Goes to Washington

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.11.07

Os melhores filmes dos anos 30 e 40 passaram na RTP nos anos 60, 70 e, mais tarde, em vários ciclos na RTP2. O que aconteceu entretanto para nada voltar a ser como dantes?

Frank Capra passa agora apenas no Natal: It's a Wonderful Life

Criticado como um idealista, Capra é muito mais do que um idealista. E ser idealista é ser menor? A meu ver, ter um ideal é fundamental. Apontar para uma qualquer existência com qualidade para todos, é fundamental. Defender a dignidade de cada indivíduo, é fundamental. Lembrar valores como autenticidade, maturidade, responsabilidade, autonomia, amizade, lealdade, é fundamental.

Mr. Smith Goes to Washington revela precisamente o choque de um idealista com a realidade do poder. Capra dá a volta à situação. E se… bastasse um idealista para desmontar negócios pouco claros, jogos de interesses? Se bastasse um idealista para devolver os valores autênticos àquele espaço nobre, o Congresso?

Capra desmonta a realidade social e ao fazê-lo de uma forma suave ou romântica, isso não lhe retira a eficácia. A mensagem passa.

A montagem das cenas, a gestão do tempo, a utilização do guião, são perfeitas. Nem pesada, nem leve demais, nem apressada, nem lenta. E isso é de génio. Onde é que voltámos a ter aqueles diálogos em cinema?

Capra dá ao indivíduo uma dimensão significativa na comunidade. O indivíduo pode resistir a ser diluído ou mesmo triturado pela comunidade, pelo grupo, pelo poder. Ele tem um lugar. Ele existe. Há um equilíbrio entre o indivíduo e a comunidade. Apoiam-se mutuamente. Para Capra isso é possível. E nós também desejamos que assim seja.

 

 

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publicado às 12:08

Thunderheart

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.11.07

Maravilhosa metáfora para os tempos actuais… no país, na Europa, no mundo… Revejo o filme com a mesma alma rebelde, e já lá vão quinze anos… Voltei sempre a esse Thunderheart para me lembrar que às vezes o indivíduo e o grupo podem enfrentar interesses obscuros e dominantes.

The suits… the Cavalry… a que o nosso herói julga pertencer no início e de que se vai distanciando ao longo do filme. À medida que encontra as suas verdadeiras raízes, que o sistema lhe tinha ensinado a rejeitar e a abandonar, deixando-o sempre inseguro, a agarrar-se a certezas exteriores, autoridade, justiça, the FBI…

A realidade exterior do sistema contrasta com a realidade humana das populações, da comunidade. E isso torna-se evidente, não se pode negar. Quem se aproxima dessa outra realidade, da humana, e ainda mantém uma réstia de humanidade na alma… desmonta essa fabricação.

Aqui o nosso herói recupera essa base de apoio e afirma-se como é, antes da programação. Irá seguir as suas raízes índias, o lado do pai. Mas ainda terá de sofrer esse abalo, descobrir que tinha seguido a mãe na negação e rejeição do pai. A identidade masculina faz-se sempre por diferenciação e implica a paz com o pai dentro de si.

Deliciosa expressão do suit, ao persegui-lo de carro, na cena final: He's going native on us... E deliciosa visão final do grupo, da comunidade índia, que aparece em cima dos montes, a toda a volta… como o bater de um grande coração universal… A visão da esperança dentro de cada um de nós…

 

 

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publicado às 11:25


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